PETI: Excluindo o trabalho infantil, formando cidadãos

18/10/2006

Criado em maio de 1996, o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) tem reduzido consideravelmente o índice de trabalho infantil no Brasil. O programa na Bahia foi implementado inicialmente na Região Sisaleira com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e hoje é uma referência nacional. Crianças com até 15 anos de idade, são assistidas por este programa que além da ajuda financeira, contribui para o desenvolvimento educacional.

Quando completam 16 anos de idade, as crianças que até então recebiam a bolsa auxílio do PETI não podem mais ser assistidas pelo programa. Chega então o momento de pensar qual o rumo a ser seguido. Núbia da Silva, Daniela Mercês e Tainá Santos revelam o que mudou em suas vidas após a saída. São depoimentos que revelam a importância desse programa para assegurar o desenvolvimento saudável da infância.

Viagem ao passado

Núbia da Silva Oliveira tem 22 anos de idade, mora na comunidade de Mateus, em Conceição do Coité e atualmente está cursando o 3º semestre de Letras na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) através do Curso Pedagogia da Terra. Com o sonho de ser professora e conquistar um mestrado em educação, a ex-integrante do PETI conta que conseguiu entrar na escola aos nove anos, revezando a escola e o trabalho na plantação de sisal em companhia dos pais.

“Lembro da minha infância, talvez não por ter sido muito boa e sim porque foi um pouco sofrida. Não tive a infância que toda criança deseja. Aos sete anos de idade tive que trabalhar na lavoura de sisal para completar a renda familiar”, relembra.

Aos 13 anos, Núbia foi inserida no PETI onde permaneceu durante três anos. Ao sair do programa, atuou como Agente de Família, iniciou sua participação nos movimentos juvenis e hoje é uma liderança reconhecida pelos movimentos sociais da região. A participação no programa despertou o interesse na jovem em trabalhar com as comunidades que revela não querer abandonar o movimento social e ser apaixonada pelo trabalho coletivo.

Em 2005, durante o Revezamento da Tocha Olímpica no Rio de Janeiro, Núbia Oliveira recebeu o título de Campeã da Erradicação do Trabalho Infantil.

Lições para toda a vida

Outra jovem que superou a saída do PETI foi Daniela Mercês Queiroz. Residente em Barreiros, no município de Riachão do Jacuípe, a jovem de 21 anos participa desde sua saída do PETI em 2004 do Projeto de Assistência Técnica Rural (ATER Jovens), desenvolvido pelo MOC. “O ATER Jovens me proporcionou várias mudanças: melhorou a minha forma de pensar e ver o mundo, de interagir com a escola, coisa que eu não fazia. Hoje tenho orgulho em admitir que sou da zona rural”, garante.

Atualmente pensa em fazer um curso superior em Agronomia. “Quero contribuir muito com a minha comunidade para que os agricultores possam cultivar melhor, ter melhores alimentos, aproveitar bem as pequenas propriedades que têm. A minha família tem uma área pequena de terra, mas já estou desenvolvendo nela técnicas interessantes de convivência com o semi-árido, foi o que aprendi nos cursos do projeto e na Fundação Bradesco”, ressalta.

Agora, Daniela Mercês está desenvolvendo uma horta verão com as crianças do PETI na Jornada Ampliada de Barreiros. “A horta verão é uma técnica muito útil para nossa região. Eles estão gostando. Essa é minha vida e tenho levado isso a sério”.

Educação que respeita a realidade do campo - Outra jovem egressa do PETI é Tainá Santos Moraes, de 16 anos. Tainá mora no povoado de Encruzilhada, distante 12 km da sede do município de Valente. Aos oito anos de idade, deixou de trabalhar no motor de sisal e começou a estudar devido à luta do movimento social organizado que denunciou a exploração do trabalho infantil na Região Sisaleira.

A adolescente afirma que o Brasil precisa de professores que se preocupem com as crianças da zona rural e que saiba trabalhar com uma educação voltada para a realidade do campo, respeitando as especificidades. “No CAT os professores se dedicam mais e a gente aprende mais. Era mais prazeroso pra mim porque eu estudava o campo na escola, pesquisava em casa e levava de volta para a escola”, conta a adolescente que está cursando o 1º ano do ensino médio no Colégio Estadual Wilson Lins em Valente.

Da sua trajetória no programa, Tainá recorda emocionada do projeto Baú de Leitura, uma das mais bem-sucedidas experiências do MOC e do UNICEF dentro do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil, em parceria com a Secretaria Estadual do Trabalho e Ação Social (SETRAS), prefeituras municipais e sociedade civil. “Na escola que eu passei a freqüentar, não tinha apenas a professora, os livros e as paredes, nessa escola tinha algo mais: uma educação de acordo com a realidade e as necessidades do meio rural”.

O encanto com o Baú de Leitura rendeu bons frutos. Mesmo com a saída do PETI, Tainá continuou atuando no projeto e foi capacitada para trabalhar com crianças e adolescentes do programa que contribuiu para as mudanças na sua vida. Atualmente ela trabalha contando histórias para as crianças do PETI.