“Tempo duro ficou para trás”, diz dona Beatriz

“Tempo duro ficou para trás”, diz dona Beatriz

02/12/2014

“Nossa casinha era aquela pequeninha lá. Era ali que morava antes de conquistar essa casa maior”, diz a produtora rural de 46 anos, dona Beatriz Pereira dos Santos, moradora da comunidade de Barreiras, município baiano de Barrocas, apontando para sua antiga casa onde morou por vários anos e onde viu os primeiros passos dos seus filhos.
 
Naquele tempo, conta dona Beatriz, não fazia parte da Associação local, plantava quando chovia e sem nenhum conhecimento técnico. “A falta d’água era terrível. Trazia água no balde e de longe na cabeça. Tem gente que até hoje faz isso porque apesar de ser uma comunidade grande como essa, ainda não se tem água encanada por aqui”, confessa.
 
“Não quero. Eu não vou trabalhar com isso não!”, foi a primeira resposta de Dona Beatriz ao técnico do Movimento de Organização Comunitária (MOC) que lhe apresentou projetos de práticas sustentáveis de convivência com o Semiárido. Incentivada e conscientizada após algumas insistências, Dona Beatriz resolveu aceitar a proposta. “Participei de intercâmbios, fiz os cursos, passei a fazer parte da Associação e tudo isso me ajudou bastante e ainda ajuda até hoje”, enfatiza. 
 
Contemplada pela cisterna calçadão há pouco mais de um ano, boa parte da água utilizada para a produção da família de Dona Beatriz vem deste reservatório hídrico, que armazena cerca de 52 mil litros de água, que podem ser utilizados ao longo de vários meses e também durante o período de estiagem. Mas houve um tempo em que Seu José Teodoro, esposo de Dona Beatriz, precisou viajar para garantir o sustento da família e eles foram morar na sede.
 
“Fui por causa da escola dos meninos e também porque fiquei só aqui. Foi um tempo duro”, diz. “Depois que eles estudaram as coisas começaram a melhorar um pouco, aí chegou a energia, a gente andava cinco quilômetros de Barrocas até aqui, pegava na enxada, plantava feijão e mandioca e de tardinha voltava pra casa de novo. Sempre eu, meu marido e os meninos. Tinha que carregar água de longe para molhar”, mas a gente não vendeu nossa propriedade.
 
Desenvolvimento sustentável
A família cresceu, os filhos casaram e o casal ganhou duas netinhas. Organizados, hoje Dona Beatriz e Seu Teodoro tem um quintal onde produzem e consumem um pouco de tudo de maneira sustentável e totalmente orgânica. Vem dali o sustento da família e o que sobra é comercializada no Espaço da Agricultura Familiar, na sede do município e entre os vizinhos.
 
“Trabalho com minha família. No meu conhecimento, agricultura familiar não mexe com agrotóxicos e a família toda mexe na terra. O pessoal já me conhece e pede meus produtos porque sabem que eles não possuem agrotóxicos”, argumenta a produtora que já recebe em sua propriedade grupos de agricultores em intercâmbio intermunicipal para trocas de experiências e saberes. “Eu nunca imaginava que ia ser do jeito que tá hoje. Também aprendo muito com os intercâmbios”, diz.
 
Dona Beá, como é mais conhecida no local, há alguns meses integra o quadro de sócios da Associação de Desenvolvimento Comunitário da Fazenda Barreiras (Adecofaba), que existe há 26 anos e possui atualmente 195 sócios ativos. Também faz parte do fundo rotativo da comunidade que começou com oito pessoas em 2012 e hoje está com quinze, e ainda participa do Banco de Sementes instalado na sede da Associação, onde produtores do local guardam suas sementes crioulas. “Tinha sete anos quando meus pais já plantavam dessa semente aqui. Hoje tenho 73 anos e a semente do feijão enxofre tá aqui sendo preservada”, enfatiza Sr. Henrique Bispo, fundador da Associação e um dos fundadores do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Barrocas. 
 
Com organização familiar, práticas agroecológicas e com ações bem planejadas é possível produzir alimentos de qualidade e ter água para consumo e produção. São pessoas como Dona Beatriz e sua família que ajudam a transformar e melhorar ainda mais a realidade do Semiárido brasileiro.
 
 
 


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