A Transformação da Paisagem e o Risco Ambiental no Semiárido Baiano
Pesquisa e Ciência

A Transformação da Paisagem e o Risco Ambiental no Semiárido Baiano

Autor: Benicio Abel da Silva Andrade Leão

Benicio Abel da Silva Andrade Leão

O Semiárido brasileiro é, por natureza, um território de resiliência. Nele, a Caatinga se manifesta como um bioma único, capaz de florescer após as secas mais severas. No entanto, o que estamos testemunhando em Jeremoabo, no interior da Bahia, não é apenas o ciclo natural da seca, mas um processo sistemático de degradação que ameaça transformar a vida em pó. O avanço da desertificação, impulsionado por décadas de uso insustentável do solo, é um alerta que não podemos mais ignorar.

O Retrato da Mudança: Menos Floresta, Mais Pasto

Dados recentes revelam uma transformação drástica na paisagem de Jeremoabo. Entre 1991 e 2019, o município perdeu aproximadamente 24 mil hectares de floresta nativa. Para se ter uma ideia da magnitude, isso equivale a milhares de campos de futebol de vegetação original que simplesmente desapareceram.

Em contrapartida, as áreas de pastagem e agropecuária cresceram de forma alarmante, somando juntas um aumento de 50 mil hectares. O problema não reside na atividade agropecuária em si, mas na forma como ela é conduzida: modelos extensivos que não respeitam os limites ecológicos de um solo já naturalmente frágil.


Figura 1: A transformação da paisagem em Jeremoabo revela o avanço das áreas antrópicas sobre a vegetação nativa – MAPBIOMAS, 2021.

Fonte: Leão (2025). 

A Fragilidade Sob Nossos Pés

A ciência nos mostra que Jeremoabo caminha sobre um "chão de vidro". Cerca de 40% do território é composto por solos conhecidos como Neossolos Quartzarênicos e Litólicos. São solos arenosos, com baixíssima capacidade de reter água e nutrientes. Quando retiramos a cobertura vegetal para dar lugar ao gado ou a plantios temporários sem manejo adequado, deixamos a terra exposta à erosão e ao sol escaldante.

O resultado é um ciclo vicioso, o solo compactado pelo pisoteio animal impede a infiltração da água da chuva, agravando a escassez hídrica mesmo quando chove. O que sobra é uma terra exaurida, incapaz de sustentar a biodiversidade e, futuramente, a própria produção humana.


 Figura 2: O balanço negativo da floresta frente à expansão da agropecuária e pastagens.

Fonte: Leão (2025).

Cicatrizes de Fogo e Desmatamento

As evidências são brutais. Imagens registradas em 2022 e 2023 mostram a Caatinga sendo dizimada por queimadas e desmatamentos indiscriminados. O fogo, muitas vezes utilizado para "limpar" o terreno, destrói o potencial de regeneração natural do bioma, deixando para trás apenas cinzas e solo nu.

 

 


Figura 3: Cicatrizes de fogo e desmatamento em Jeremoabo – Bahia, 2022 e 2023.

Reprodução de imagem – Disponível em: https://www.jeremoabo.com.br/noticia/63472/jeremoabo-ba-incendio-de-grandeproporcao-por-pouco-nao-causou-desastre-ambiental | https://www.pa4.com.br/noticias/caatinga-esta-sendodizimada-naregiao-de-santa-brigida-e-jeremoabo-alerta-fpi/

A desertificação não é apenas um fenômeno ecológico, é uma tragédia social. Ela precariza os modos de vida das comunidades que dependem da terra, geram insegurança alimentar e força migrações. Como bem aponta a literatura acadêmica, o homem é, simultaneamente, o agente ativo e a maior vítima desse processo.

Um Futuro Possível?

Não podemos aceitar a desertificação como um destino inevitável. O caso de Jeremoabo exige uma mudança urgente de paradigma. Precisamos de políticas públicas que incentivem a convivência sustentável com o Semiárido: manejo racional do solo, recuperação de áreas degradadas e o fortalecimento de práticas que conciliem a produção econômica com a conservação da Caatinga.

Diante das mudanças climáticas, se não agirmos agora para reverter essas tendências, o "Sertão" que conhecemos pode se tornar um deserto sem volta. A justiça social no Semiárido passa, obrigatoriamente, pela justiça ambiental.

Baseado no estudo: Uso do Solo e Vulnerabilidade à Desertificação no Semiárido: Evidências em Jeremoabo – BA (Leão, B. A. S. A., 2025).

Autor: Benicio Abel da Silva Andrade Leão

Referência:

LEÃO, Benicio Abel da Silva Andrade. USO DO SOLO E VULNERABILIDADE À DESERTIFICAÇÃO NO SEMIÁRIDO: EVIDÊNCIAS EM JEREMOABO – BA. In: Livro de Memórias do Sustentare & WIPIS. Anais...Campinas(SP) PUC CAMPINAS, 2025. Disponível em: https//www.even3.com.br/anais/lv-sustentare-wipis/1273531-USO-DO-SOLO-E-VULNERABILIDADE-A-DESERTIFICACAO-NO-SEMIARIDO--EVIDENCIAS-EM-JEREMOABO--BA. Acesso em: 27/02/2026

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