O retorno do Baú de Leitura para Araci foi garantido na passagem da Caravana MOC 50 Anos no município

O retorno do Baú de Leitura para Araci foi garantido na passagem da Caravana MOC 50 Anos no município

31/07/2017

#2017MOC50Anos
#PorumSertaoJusto
Seguida por vários carros com suas buzinas estridentes que anunciavam a carreata da Caravana MOC 50 Anos no município de Araci, a "bonanza" - carro símbolo do MOC - deixava para trás a Escola Antozildo Torres. Durante toda a manhã dessa sexta-feira, 28 de julho, a Escola foi sede de muitas atividades facilitadas por técnicos do MOC envolvendo cerca de 220 agricultores e agricultoras familiares, grupos de produção, profissionais da educação,  homens e mulheres, jovens, crianças e adolescentes. 

Chamando a atenção dos moradores ao seguir pelas ruas da cidade a carreata seguiu ao som de foguetes até a Câmara de Vereadores local onde aconteceu a culminância, a parte mais esperada do dia. 
O grupo cultural de samba de roda da comunidade de Tapuio, integrantes do Movimento Quixabeira, que existe há 22 anos, deu início ao Talk Show ou nossa "conversa conversada" com esses sujeitos que contaram como o MOC faz parte da história das suas vidas.

Sentado no lugar de honra da tribuna legislativa por ser o mais antigo dentre aqueles que ocuparam a mesa para contar suas histórias, José Leôncio das Chagas, agricultor familiar da comunidade Malhada da Areia deu início ao diálogo.  "Sei a história do MOC e acompanhei sua história que passamos pela ditadura há 50 anos e hoje precisamos ingressar ou continuar na luta porque ainda tem resquício daquele tempo que a gente vivia numa grande opressão", enfatizou. Seu José ressaltou a figura de Albertino Carneiro o fundador do MOC "...que trocava ideia com os companheiros sobre a qualidade de vida dos trabalhadores rurais", falou sobre a contribuição do MOC no surgimento dos sindicatos, associações, grupos de trabalho, das cooperativas e dos projetos para construção das primeiras cisternas da região.

Baú de Leitura
Em muitas das histórias ali compartilhadas um assunto pertinente foram as boas lembranças deixadas pelo projeto Baú de Leitura e a solicitação ao poder público pelo retorno da parceria para que o MOC possa viabilizá-lo outra vez no município. Um dos relatos mais emocionantes ficou por conta de Cristiano da Cunha Santos, da comunidade de Tapuio, que lembrou da sua professora Maria Marta, a primeira a lhe apresentar o Baú de Leitura quando ainda cursava o 4ª ano. “Ela chegava sempre às quartas-feiras e trazia um Baú cheio de livros, criava cenários e incorporava o personagem do livro. A partir daí me encantei pela leitura. Pena que hoje os professores daqui não levam mais o Baú para as salas” ressaltou. 

Cristiano é um jovem com apenas 15 anos de idade e desde muito criança participa do projeto “Parceiros por um Sertão Justo” desenvolvido pelo MOC com apoio da instituição internacional Actionaid que apadrinha crianças e adolescentes em todo o mundo. “Depois de participar de muitas oficinas do MOC descobri que tenho direitos e também deveres. Direito a uma melhor educação, saúde de qualidade e aprendi que não preciso sair do meu Nordeste para trabalhar. Hoje sei que na minha horta posso consumir e posso vender. Tem cisterna lá e na minha escola agora tem também que ajuda. Aprendi no MOC que posso lutar, posso ir para a pista e gritar o que penso. Sei também que somos capazes de pegar uma raiz, uma parte do sisal e transformar num lindo arranjo”, enfatizou concluindo: “Agradeço ao MOC por me ajudar a lutar pelos meus direitos, agradeço pela minha história contada no jornal ‘Bocapiu’ e agradeço por fazer parte dessa história do MOC”.

Gauba Rejane,  ex coordenadora do Projeto CAT, também citou o Baú e ressaltou o trabalho da professora Jussara Secundino e das técnicas do MOC  Vera e Bernadete Carneiro diante do projeto. “Vamos levar o Baú para onde estamos seja em sindicatos ou associações, porque todo o processo metodológico do Baú é encantador. A leitura tem o poder de transformar a realidade das pessoas”, disse. A professora Lolita, da comunidade de Barbosa, que já participou das formações do projeto também solicitou seu retorno. “Eu e meus colegas desejamos vivenciar novamente esses momentos.  Se deu certo, vamos resgatar”, convocou.

“Tínhamos jovens aqui que não queriam nada. Mas o MOC com seu Baú de Leitura mudou a realidade desses jovens em Araci”, reconheceu a vereadora Edneide Pereira. A vice prefeita Maria Betivânia de Jesus “Keinha” endossou as palavras de Edneide: “Desde minha trajetória política e caminhada nesse município vejo a transformação trazida pelo CAT e Baú de Leitura. Vejo Célia [coordenadora geral do MOC] cobrar insistentemente e temos consciência da nossa deficiência nesse sentido. A partir do ano que vem está garantido a parceria e o retorno desses projetos. O município de Araci cresceu muito com isso”, declarou.

Direitos e Empoderamento
Entre uma música e outra os relatos seguiam. “O MOC para mim é um arco-íris que consegue brilhar em pessoas e em vários lugares”, enfatizou Mariza Matos, representante das mulheres.  “As mulheres que estão aqui hoje todas são empoderadas, independentes, tem a liberdade de chegar onde quiser e ainda dizer: ‘Eu passei pelo MOC’”.

Ivanice Santos, integrante do grupo de produção local 
Arte e Cultura declarou que tudo é possível, basta querer. “Hoje nós mulheres sabemos que o lugar da mulher é onde ela quiser e nós queremos. Nos grupos não só produzimos, também conversamos, fazemos amizades, enfim, é uma terapia.  Ao invés de ficar em casa chorando, a gente produz, vende, viaja. Agradecemos ao MOC por isso e pelas cisternas também”, declarou.

“O MOC  tem identificado e orientado as pessoas a serem cidadãos de direitos. Promove essa sabedoria. Vale refletir: Se não fosse o MOC, quem seria eu?”, interrogou  José Eduardo Lisboa, da Apaeb, ali representante da sociedade civil. O presidente da FETRAF, Rosival Leite, falou do protagonismo do MOC. “Os maiores dirigentes que há muito tempo já articulam e que fortalecem a agricultura familiar passaram pela formação do MOC. O protagonismo do MOC é de dar vida justa ao povo do semiárido”, ressaltou.

“Vou subir e falar daí de cima porque o MOC me ensinou a não ter vergonha de falar”, iniciou sua fala  agente comunitária Mariene Cerqueira que apresentou na tribuna e toda orgulhosa a Ata de fundação da Associação da Comunidade de Fubá e seu diploma de datilografia fornecidos pelo MOC há muitos anos. “Eu com 15 anos deixava de ir para as festas com os amigos para ir para as reuniões do MOC. Plantamos muita coisa”, declarou sob aplausos dos presentes. Muitas outras pessoas da plenária também deram seu testemunho.

Memórias
Finalizando a culminância a coordenadora geral do MOC, Célia Firmo, além de falar sobre o desafio da criação do MOC em plena era da ditadura, trouxa à tona algumas memórias da história do MOC em Araci.  Lembrou da primeira Rádio Comunitária local e do dia em que a Polícia Federal chegou para fechá-la sem sucesso. “Escondemos os equipamentos dentro de uma caixa de isopor e enganamos a Polícia”, ressaltou.

Célia também citou Malhada da Areia, Fubá e Lagoa do Curral como as três primeiras comunidades a criarem suas Associações na década de 80 com a assessoria do MOC. Destacou a comunidade de Baixa como uma das primeiras a instalar seu Banco de Sementes, e os pedreiros de Araci, agricultores familiares, que aprenderam o ofício construindo cisternas e que hoje são referência por onde passam.

Célia também falou sobre a conquista para a instalação das cisternas  no município. “Araci foi muito importante na luta pelas cisternas, mesmo antes do Programa 1 Milhão de Cisternas. As cisternas antes eram feitas numa parceria com o MOC e Apaeb e as famílias pegavam no Fundo Rotativo em nome das mulheres, o dinheiro emprestado para a construção. E assim construímos várias cisternas. Nunca tivemos uma inadimplência nos empréstimos para esse fim”,  declarou.

Antes do “Parabéns pra você” seguido pelo saboroso bolo em homenagem aos 50 anos do MOC, Célia convidou Alisson,  neto de Maria Madalena dos Santos, cidadã de Araci, sindicalista, líder do Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais (MMTR ) que deixou um legado de 27 anos de sua vida dedicado às organizações de mulheres. “Vocês e o MOC que fizeram parte da história dela sabem que precisamos sempre aprender com os ensinamentos que ela nos deixou”, declarou num dos momentos mais emocionantes do dia que finalizou com o retorno da "bonanza" para Feira de Santana, carregada de histórias de vida dos 
sujeitos que ajudam a escrever a história do MOC neste seu meio século de existência.

Por:
Texto: Maria José Esteves
Foto: Kivia Carneiro
Programa de Comunicação do MOC